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terça-feira, 22 de março de 2022

Dance Comigo até o Fim


A rua que acompanha o extenso muro do cemitério era o único caminho para chegar em casa depois de um longo dia de trabalho. E foi nessa rua onde tudo começou, enquanto eu caminhava e olhava para o interior do cemitério e via as figuras disformes que se escondiam atrás dos túmulos, outras se escondiam atrás das árvores secas que enfrentavam o inverno. Por três noites foi assim, espectros atormentados e zombeteiros flertavam comigo durante minha caminhada noturna. 

Certo dia, decidi parar para observá-los - grande erro, talvez! Me sentei em um velho banco de madeira que ficava do outro lado da rua, de frente ao muro do cemitério; naquele horário, perto das onze da noite, ninguém transitava por aquela rua de terra  úmida, e eu sozinho, naquela noite fria, tinha como companhia - além daqueles espíritos - apenas o som do vento e dos jarros de flores se quebrando ao cair dos túmulos. Eu contemplava as sinistras sombras que vagavam pelo cemitério, algumas se atreviam a se movimentar até o muro, outras mais ousadas vinham de encontro a mim, parando no meio da rua, evitando se aproximar do banco onde eu estava sentado; era como se aquelas figuras tentassem, de alguma forma, se conectar comigo. Nos dois primeiros dias que as vi, acelerei o passo e evitava olhar para elas, mas naquela noite eu não senti medo algum.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Alice Cooper lança disco de vinil com narração de histórias de terror



Os fãs de música pesada e contos de terror agora poderão unir as duas coisas em um lugar só. No final de janeiro foi lançado um disco de vinil contendo uma narração de um conto de horror na voz de Alice Cooper. O áudio em sua totalidade tem 16 minutos.

O lançamento recebeu o nome de Alice Cooper and the Tome of Madness e foi lançado como um acompanhamento do videogame de mesmo nome que estreou em 2021 com temática baseada no cantor.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Tênebra, biblioteca digital reúne contos de terror brasileiros

Coleção "Medo Imortal" da Darkside.


Lançada no dia 31 de outubro, a Tênebra é a primeira biblioteca digital de narrativas obscuras brasileiras. Fundada por Júlio França e Oscar Nestarez, especialistas em literatura, a iniciativa também conta com a equipe técnica formada por Ana Resende, Laura Cardoso, Magda Oliveira e Maíra Kirovsky.

O que seriam narrativas obscuras? Estamos falando sobre histórias de terror, de horror ou góticas? Oscar me explicou que existe uma certa diferença entre essas taxonomias. "Apesar de gótico, horror ou terror serem muitas vezes empregados como sinônimos, na verdade, quando pesquisamos a historiografia da narrativas assustadoras, compreendemos que, embora haja inúmeros pontos de contato entre essas categorias, há distanciamentos também."

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Dying Light 2 lança série de contos de terror com lendas da cidade do jogo


A Techland publicou a sua primeira história em áudio da série Dying City, disponível em português do Brasil, que traz no elenco dubladores como Guilherme Briggs (Superman), Carmen Sheila (Valente) e Gustavo Nader (The Big Bang Theory). “Rosemary” apresenta aos jogadores um pouco mais do sombrio mundo de Dying Light 2 Stay Human, em um conto de arrepiar sobre pesadelos recorrentes.

“Rosemary” é uma lenda urbana do mundo de Dying Light 2 Stay Human, criada para pessoas que adoram histórias de terror contadas ao redor de uma fogueira. O conto é o primeiro de uma curta série de narrativas em áudio sobre eventos que são difíceis de acreditar que tenham, de fato, acontecido. São diversas as histórias pós-apocalípticas de Dying Light 2, e as dificuldades de sobrevivência numa cidade cheia de perigos são uma constante fonte de inspiração.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Causos de Medo, projeto de terror vence edital de economia criativa no Piauí


O jovem cineasta piauiense Bruno Paes, 24 anos, criou uma série de animações, transformando histórias de terror em contos na internet. O projeto "Causos de Medo" conta com o apoio do Sebrae e foi vencedor do edital de Economia Criativa que contou com a participação de 15 empresas piauienses. 

Cada conto é apresentado em episódios de três a cinco minutos e as histórias podem ser acessadas pelo canal Causos de Medo no Youtube. Este é o primeiro trabalho realizado pelo recém-formado cineasta através de edital. Bruno se formou em Cinema no Ceará e escolheu o formato de animação por conta do momento de pandemia que se vive, já que ele dispensa a criação de sets e a formação de uma equipe para montar a série.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Oito contos de terror que marcaram a Era Vitoriana


A Era Vitoriana foi a época do reinado da Rainha Vitória, entre os anos de 1837 até 1901. A época podia ser considerada como puritana, mas a literatura e seus contos estavam longe disso. Os contistas e escritores, embasados em temas como morte, sobrenatural, sexo e dinheiro, ajudaram a divulgar a Era Vitoriana como macabra.

Na Europa e na América do Norte, os habitantes estavam se mudando para as cidades, o índice de alfabetização e de poluição aumentou consideravelmente. Foi nesta época que se iniciaram as vendas de folhetins, chamados de Penny Dreadfuls, “centavos do terror”, em livre tradução. Os folhetins eram baseados em pessoas reais ou inspirados em antigos contos góticos. Por serem baratos e populares entre o povo foram amplamente difundidos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

La Ursa, uma experiência aterrorizante no Carnaval pernambucano


Com a proximidade do Carnaval, me lembrei mais uma vez desta história que aconteceu há muitos anos, quando eu tinha por volta de 9 ou 10 anos de idade, e que até hoje mexe com o imaginário da nossa família. Sou de uma família numerosa, mais de 10 primos em primeiro grau, isso apenas dentro da mesma faixa etária, que hoje gira entre os 25 e 30 anos. Na época do que vou narrar, éramos todos "pirralhos", e estávamos passando o feriado de carnaval na casa de praia de nossos avós.

As crianças da família eram muito conhecidas na vizinhança, que era tranquila e segura. Passávamos o dia na praia e a noite em frente à casa ou passeando pelas ruazinhas próximas, que tinham casas de moradores e outros veranistas. Quem já foi ou tem casa de veraneio numa praia tranquila conhece bem o que são aquelas ruazinhas secundárias, um sossego só.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Podcast Mundo Freak prepara minissérie especial de Halloween

Ouvintes e fãs de horror poderão conferir os "Relatos de um Oficial de Resgate" entre os dias 27 e 31 de outubro.

Chegou a época mais misteriosa do ano. A estação das bruxas, o mês assombrado: o Halloween! É a época em que tudo que mais queremos é um momentinho de sossego, assistindo um filminho de terror ou lendo um bom livrinho e se assustando na segurança do seu lar. Afinal, uma das diversões do terror é estar seguro, mas sentir aquele frio na espinha, não é?

O Portal Mundo Freak, conhecido produtor de podcasts voltado para o gênero de mistério e terror, inova mais uma vez na produção de um conteúdo inédito. Na última semana de outubro, entre os dias os dias 27 e 31, ouvintes e fãs de terror poderão acompanhar uma minissérie de horror, em formato podcast, em cinco episódios, livre adaptação do conhecido conto "Relatos de um Oficial de Resgate".

terça-feira, 26 de março de 2019

Leia o primeiro conto de O Mundo de Lore: Criaturas Estranhas, novo livro da DarkSide Books



A DarkSide Books, que já contou inúmeras histórias aterrorizantes, tem uma para te contar. Uma não, várias – mas para despertar ainda mais a paixão pelas noites escuras e, claro, pelas histórias de vampiro, revelamos o primeiro conto de O Mundo de Lore: Criaturas Estranhas, livro da DarkSide Books que chegou agora em março nas livrarias.

Originado do premiado podcast Lore com mais de 180 milhões de reproduções pelo mundo, O Mundo de Lore: Criaturas Estranhas revela o que há de mais sombrio e assustador entre nós.

Deixe sua estaca de madeira por perto e leia agora o primeiro conto do livro de Aaron Mahnke, com ilustrações de M. S. Corley e tradução de Débora Isidoro.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

O Sacrifício para o Chupa-Cabra


Quando criança, eu costumava sentar na calçada junto com os adultos e com os velhos para ouvir suas histórias e lendas. Como eu queria que eles estivessem mentindo! O curioso nisso tudo é que, para o meu azar, eu não aprendia as valiosas lições que nelas continham. Na hora de meu deitar, quase sempre eu ia dormir com medo. Acho que por que no fundo eu sabia que essas terras têm dessas coisas. O interior onde eu moro é cheiro de segredos, e eu descobri isso da pior forma possível.

Foi naquela maldita noite, depois de brincar com os amigos. Eu estava indo para o curral com meu vô, que andava lentamente com a ajuda da bengala, quando ele me começou a me contar uma história que tinha acontecido com ele:

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A Maldição da Quarta-Feira de Cinzas


Hoje é Quarta-Feira de Cinzas, por ser uma data considerada sagrada, existe uma antiga lenda que diz que quem celebrar o Carnaval após a meia-noite da terça-feira, pode ser punido, é com base nessa lenda urbana que o relato assustador que você irá ler abaixo foi inspirado. 

E nos diz o dito popular: ” O pior cego é o que não quer ver.”

segunda-feira, 5 de junho de 2017

O Balanço


Balanços são comumente considerados simples mecanismos para o divertimento tanto dos mais jovens quanto daqueles que gostam de relembrar a infância. Mas não neste conto de terror que você vai ler agora..

terça-feira, 16 de maio de 2017

A Bailarina



Muitas pessoas sonham com apartamentos maiores, carros confortáveis, férias incessantes descobrindo países e lugares onde uma fotografia lhes mostra o que os seus olhos limitados nunca irão perceber. Eu nunca desejei, ou melhor, tive tempo para desejar, nada destas coisas. Eu fui atraída para o que se tornou o objeto dos meus desejos e depois uma parte de mim – de como eu passaria a existir. 

Era uma caixa de música comum; o espelho no interior da tampa, o espaço reservado para as joias e o palco de vidro desenhado com mosaicos circulares onde a bailarina que havia se perdido dançava em um tempo no qual não participamos. A chave que dava corda à caixa de música estava emperrada e era dona de um movimento impossível. Não podíamos escutar a melodia monofônica, metálica, que um dia junto com a bailarina aos rodopios imaginávamos ter encantado aqueles que a admiravam.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

TOP 10: Contos assustadores sobre palhaços


Palhaços assustadores estão sendo vistos nos últimos dias tocando o terror em vários países ao redor do mundo, inclusive no Brasil também está tendo muitos relatos sinistros de avistamentos.

Pensando nisso reunimos abaixo 10 contos de terror envolvendo essas sinistras criaturas:


quinta-feira, 25 de junho de 2015

A Ajuda do Espantalho


Numa cidadezinha do interior, um homem muito pobre tinha uma fazenda com plantação de milho, mas apesar disso passava necessidades, pois sua plantação era constantemente atacada por pássaros, sem ter o que comer, sua família ia se definhando. Um dia sua esposa chega e diz: -“Amor acabou a comida, não jantaremos essa noite”. O homem entra em desespero era ele sua mulher mais três filhos, deixar eles morrem de fome seria o fim. Meu deus o que eu faço? Clamou o pobre homem!

Então numa noite ele resolve fazer um espantalho de palha vestido com roupas velhas e uma careta mal feita. Então o homem já sem esperanças senta numa pedra bem de frente para o espantalho e clama por ajuda, do nada aparece um pequeno fogo embaixo do espantalho, então o espantalho soltou uma risada macabra, o homem achou que estava ficando louco e foi dormir. No outro dia a plantação voltou a dar frutos e os pássaros tinham ido embora, ninguém sabia o porquê dessa virada, só o homem e ele tratou de não contar a ninguém.

Com a família já prospera, o espantalho foi esquecido, ficou lá no meio da plantação, abandonado e cheio de teias de aranha. Um dia à noite o filho do homem estava brincando na plantação quando se deparou com o espantalho, o garoto meio pestinha pegou uma pedra e tacou no espantalho e começou a fazer chacotas, então o menino gritou dizendo que os olhos do espantalho ficaram vermelhos, depois disse que estava saindo uma fumaça de sua boca e por fim que tinha começado a se movimentar. Achando que era apenas uma brincadeira de criança a mulher ignora até ouvir um grito.

Eles se retiram correndo da casa e vão imediatamente em direção do local do grito da criança, o homem com uma espingarda e a mulher logo atrás, vão para o meio do milharal e se deparam com o corpo do menino caído lá no meio da plantação, ao chegarem perto percebem muito sangue e que ele está com a boca e os olhos costurados. A mulher solta um grito de pavor, o homem então olha para o espantalho e se culpando pela morte do filho, coloca fogo no espantalho, enquanto ele queima uma risada maléfica é ouvida, assustados eles resolvem abandonar a fazenda. Quando estavam saindo, uma fumaça preta subiu ao céu e se dissipou.

Aquela fazenda nuca mais foi habitada por ninguém, todos tinham medo, dizem que se passar a noite de lua cheia pode ouvir o espantalho dando risada junto com um menino pestinha com os olhos e boca costurados, e os que se atreveram a entrar na fazenda ou fazer chacotas, desaparecem misteriosamente, restando apenas sangue e roupas rasgadas.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Estação Inferno



Desci as escadas da estação Cinelândia muito rapidamente para tentar entrar na composição do metrô que já soava o sinal de que as portas iam fechar-se. Como de costume, tive que trabalhar até tarde e já passava um pouco das oito horas da noite quando peguei o metrô, que, devido ao horário, não estava cheio. Este era um dos pontos positivos de trabalhar até tarde: além do ligeiro aumento do salário no final do mês, o metrô normalmente estava vazio. As vezes eu até conseguia um lugar para sentar, e hoje, felizmente, foi um desses dias. Sentei-me em um banco vazio, perto da janela – que aliás, não serve para muita coisa, dada a escuridão que consome aqueles intermináveis túneis.

Quando a composição iniciou a viagem, abri minha mochila para pegar o livro que vinha lendo. Lembro-me de ter xingado qualquer coisa quando percebi que o livro não estava ali; “devo ter deixado em cima da escrivaninha do quarto”, pensei, chateado por ter que passar toda a viagem olhando através da janela para a escuridão que nos envolvia como uma onda que, surgida em um mar tempestuoso, envolve um barco pesqueiro qualquer perdido na tempestade, sem qualquer chance de defesa. Felizmente a viagem é curta e leva menos de 20 minutos; o grande problema é passar estes 20 minutos olhando para a escuridão. Einstein certa vez usou uma analogia para explicar a sua Teoria da Relatividade, era algo como “Uma hora passada com uma linda mulher parece um minuto, enquanto um minuto sentando em cima de um formigueiro parece uma hora.”, pois, neste exato momento, eu sentia-me sentado em cima de um formigueiro.

Quando chegamos à estação seguinte, apenas algumas pessoas entraram na composição, ocupando o resto dos lugares que estavam vagos. Ao entrar no túnel, eu já estava um bocado sonolento, com os olhos cerrados, tentando, em vão, enconstar minha cabeça na janela, quando, por um momento, as luzes da composição começaram a piscar, como se estivessem querendo falhar, espetáculo este que durou apenas alguns segundos. Subitamente, a composição desacelerou brevemente, para em seguida retomar a velocidade normal, o que resultou em um tranco um pouco brusco, o que fez com que os passageiros sacudissem levemente em seus assentos; alguns mau-humorados, como de costume, reclamaram do condutor e balbuciaram alguns palavrões. Enquanto nos recompunhamos do breve saculejo, as luzes da composição piscaram novamente, desta vez com um intervalo maior, e pude sentir que a composição perdia novamente a velocidade. Não dei muita importância para estes acontecimentos pois estava quase pegando no sono, e, à medida que meus olhos foram se fechando, sentia meu corpo leve, e minha mente em um estado de torpor muito agradável.

Acordei subitamente, após uma freada brusca da composição em conjunto com um ruído ensurdecedor do atrito de metal contra metal – o que fez lembrar-me de uma antiga professora de química em minha época de ginásio, que quando queria chamar a atenção da turma, tinha o hábito inconveniente de arrastar, com força, as unhas no quadro negro, provocando um som enlouquecedor -, o que fez com que meu corpo fosse arremessado contra o assento à minha frente e meus pensamentos fossem rapidamente desligados do que quer que seja que eu estivesse pensando naquele momento. Movi meus braços tentando apoiar-me em qualquer coisa; tive, por alguns breves segundos, a sensação de estar despencando do vigésimo andar de um prédio em queda livre, tentando desesperadamente agarrar-me a qualquer coisa que minhas mãos pudessem alcançar. Consegui proteger meu rosto com as mãos antes que ele batesse contra o assento, o que resultou em uma das mãos latejando por algum tempo devido ao impacto.

O ruído, que pareceu um eternidade dentro de meus ouvidos, finalmente cessou e a composição pareceu estar totalmente parada. Algumas lâmpadas, que outrora iluminaram o interior do vagão, estavam naquele momento apagadas, e as poucas que restaram resumiam-se a funcionar mal, piscando como os fogos de artifício que iluminam intermitentemente a orla da praia durante a virada do ano. Olhei ao meu redor e vi algumas pessoas no chão, tentando levantar-se com alguma dificuldade. A maioria, como de costume em qualquer situação fora do cotidiano, estavam em desespero, chorando, gritando, rezando. A escuridão que assombrava o túnel ao nosso redor parecia densa a ponto de querer invadir e tomar os poucos focos de luz restantes. Por um breve instante tive a impressão de que a escuridão estava se movendo e sorria maliciosamente para nós.

Apesar do pânico tomar conta das pessoas dentro daquele vagão, consegui manter a calma. Dirigi-me em direção ao comunicador que permite contato com o condutor, na esperança de conseguir qualquer informação que pudesse nos acalmar. Não tive dificuldade em remover a tampa de acrílico que impedia que o botão se movimentasse. Nesse momento algumas pessoas já estavam um pouco mais calmas, ajudadas pelos poucos que ainda estava lúcidos. Girei o botão para a posição emergência e aguardei, em vão, por uma resposta do condutor. Senti um calafrio quando não obtive resposta; ou o rádio estava quebrado, ou o pior tinha acontecido: o condutor havia morrido com o impacto. Entre gritos, choro e frases desconexas, ouvia-se especulações sobre as possíveis causas daquela parada repentina, mas a verdade é que ninguém tinha a mínima idéia do que realmente tinha acontecido.

Sem o comunicador, que nos permitiria saber se a ajuda estava próxima, e sem um único telefone celular que estivesse com sinal suficiente para fazer uma chamada, não tinhamos muito o que fazer. Lembro-me de alguém ter sugerido que tentássemos abrir as portas, idéia que na hora foi contestada por muitos dos presentes. “E se cairmos em cima dos trilhos eletrificados?”, “E se outra composição passar ao lado e atropelar todos que estiverem na linha?”. Os argumentos eram muitos, e válidos inclusive, porém, algumas pessoas não queriam ficar muito tempo ali dentro sem saber o que aconteceria em seguida. Caminhei em direção à porta que separa os vagões, afinal, seguindo por ali, estariamos perto de passageiros de outros vagões e poderíamos, de dentro da própria composição, tentar chegar perto do condutor e saber o que houve, se ele por acaso estivesse vivo. Quando me aproximei da porta, no entanto, um frio percorreu-me toda a espinha, fazendo-me arrepiar e sentir uma estranha sensação de medo e solidão, em uma amargura que por um instante tomou conta de meu coração; ao olhar através do vidro, a única coisa que vi foi a escuridão que nos assolava desde o primeiro túnel que entramos, a mesma escuridão que envolvia a composição como uma onda que, surgida em um mar tempestuoso, envolve um barco pesqueiro qualquer perdido na tempestade. Com os olhos arregalados e sentindo o corpo mole, corri na direção oposta, tentando alcançar a outra porta que nos ligava ao outro vagão. Para meu desespero, a única coisa que vi foi a mesma escuridão. Era como se o nosso vagão tivesse sido abandonado no túnel.

- Os outros vagões sumiram! – gritei, sentindo a respiração ofegante.

- Como assim sumiram? – perguntou-me um outro passageiro, que apesar de visivelmente abalado com a situação, tentava manter a calma

- Olhem através dos vidros! Não há nada a não ser escuridão! Estamos abandonados aqui!

Arrependi-me profundamente de ter pronunciado as últimas palavras, pois após a confirmação visual de que estávamos abandonados ao destino, o pânico instaurou-se novamente; recomeçaram os gritos, choro e rezas.

Quando finalmente nos acalmamos, decidimos, por unanimidade, tentar abrir as portas do vagão e tentar achar uma saída para fora daqueles túneis. Apesar de ter concordado, a idéia não me agradava muito, pois a escuridão do lado de fora parecia agora densa a ponto de querer empurrar o vagão, levando-nos sabe-se lá para onde. Juntamente com outros cinco homens que ali estavam, começamos a forçar a porta, que parecia muito mais forte que todos nós; quanto mais fazíamos força para abrí-la, mais ela fazia força para manter-se fechada. Cheguei a pensar por um momento que o vagão não queria que saíssemos dali.

Inopinadamente, a porta pareceu ceder aos nossos esforços, deslizando bruscamente para os lados, o que produziu um estampido ao terminar de abrir que nos assustou brevemente. Segundos após a porta ter se aberto, um cheiro horrendo entrou, trazido por uma leve brisa, era um misto de azedo e salgado, porém denso e penetrante; naquele momento senti um enorme embrulho no estômago, como se ele estivesse tentando virar pelo avesso sem o meu consentimento. Passado o espanto, e quando o cheiro foi levemente dissipado, viramo-nos para a porta a procura de um caminho a seguir, porém, não conseguíamos enxergar um único palmo a nossa frente. A escuridão que me acompanhava desde o primeiro túnel estava agora tão densa e tão sufocante que chegava a nos ofuscar.

- Vou descer – eu disse, olhando para o chão tentando calcular a altura a que me encontrava deste.

No momento que me preparava para descer, no entanto, fui surpreendido por algo, no mínimo, inesperado. Quando pus o pé para fora do vagão, senti que este chocou-se com algo sólido e rígido. Depois de muito tatear com os pés, concluí que tratava-se de uma plataforma, ou algo no mínimo parecido. Arrisquei apoiar-me com os dois pés, o qual fui bem sucedido. Não fazia o menor sentido, ninguém entendia nada. Como poderia haver uma plataforma no meio de um túnel? E por que diabos não passava nenhuma outra composição por aqueles túneis? A situação que já não fazia nenhum sentido antes, fazia menos ainda agora.

Caminhei cuidadosamente por cima daquela plataforma, cada passo era dado de forma muito cautelosa para evitar cair ou tropeçar em algo inesperado. Apesar de ser bem larga, não consegui saber o quão larga era, mas o comprimento era grande; já havia dado cerca de cinquenta passos sem cair ou tropeçar. Cada passo era acompanhado de meus braços totalmente esticados à frente, como se estivesse buscando uma parede imaginária para me guiar. Algumas pessoas começaram a deixar o vagão e a vir atrás de mim, depois de perceberem que a plataforma era aparentemente segura. O resto, relutantemente, concordou em permanecer no vagão para o caso de alguma ajuda aparecer.

Não sei quanto tempo passamos caminhando naquele passo vagaroso e precavido, mas tenho certeza de que foi bastante. Sempre à frente naquela jornada rumo ao desconhecido, fora eu quem encontrou uma porta fechada à nossa frente. Eu estava tateando cegamente, com os braços esticados a frente, quando senti que minhas mãos haviam tocado alguma coisa. A textura lembrava madeira revestida com fórmica, e sua largura media pouco menos de um metro; quando encontrei a maçaneta, fria e com uma leve camada do que parecia ser ferrugem, tentei girá-la e percebi então que a porta estava trancada, o que não era surpresa. Como não havia qualquer maneira de prosseguir além daquele ponto, a solução foi arrombar a porta, o que se mostrou uma tarefa muito simples quando executada por mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

Ao abrir a porta, quase perdi os sentidos quando novamente aquele cheiro azedo que nos beijou levemente a face quando abrimos a porta do vagão tornou a beijar-nos ao abrir esta porta; desta vez, porém, o cheiro era mais forte e mais azedo. Quando meu cérebro se acostumou com o cheiro, olhei para o lugar que a porta nos conduziu. Duas lâmpadas fluorescentes dispostas horizontalmente em uma calha suja tentavam quase que inutilmente iluminar a sala úmida e quadrada, de aproximadamente vinte metros quadrados, totalmente vazia, com que nos deparamos. As paredes de pedra sem nenhum tipo de acabamento tinham cerca de três metros de altura e formavam ângulos de noventa graus com o teto, tambem sem acabamento, de onde surgiam alguma goteiras. Demorei a reparar uma escada embutida na parede oposta à porta em que estávamos. Os degraus pareciam de ferro e estavam bastante maltratados pela ação do tempo, encontrando-se totalmente oxidados. Olhando para a parte do teto aonde estava a escada, percebi uma pequena entrada de aproximadamente um metro quadrado. Ali jazia toda a nossa esperança de sair daquele lugar.

Escolhemos aleatóriamente um candidato para se aventurar para aquela extremidade. Não demoramos nesta escolha pois a vontade de encontrar uma saída era compartilhada por todos que ali estavam. Quando o sujeito deu o primeiro passo para dentro da sala, no entanto, o inesperado – e inimaginável, diga-se de passagem – aconteceu. As paredes, antes de pedra e sem nenhum acabamento, adquiriram uma cor avermelhada, tão forte que parecia brilhar, com alguns detalhes em amarelo, e pareciam dançar lentamente ao som de uma lenta e hipnótica música eletrônica. O que antes era o teto parecia agora um amontoado de chamas que teimavam em retornar ao lugar de onde queimavam, sem fazer, no entando, som algum. O chão tornou-se um abismo aparentemente sem fim, escuro e sombrio como a escuridão que vinha nos acompanhando desde o início. Passamos a ouvir gritos de agonia e dor profunda, parecia que muitas pessoas estavam sendo torturadas ininterruptamente. Os gritos ecoaram dentro de minha cabeça, como se naquele momento meu cérebro tivesse se transformado em geléria, deixando a caixa cerebral totalmente vazia. Aquele cheiro, azedo, parecia jorrar aos montes de dentro do abismo, desta vez sem trégua ao nosso olfato. O pobre sujeito, que já havia posto um dos pés dentro da sala, não conseguiu segurar-se e despencou, rumo ao desconhecido – ou rumo ao inferno, como um dos presente teimou em apelidar aquela sala. Nada pudemos fazer quando um grito forte e desesperado, recheado de terror foi proferido de sua garganta. Atônitos, ainda ponderando se o que estávamos assistindo era real ou apenas um reflexo maldoso de nossas mentes sobre nossos corpos cansados, só pudemos olhar a queda até que o som do grito fosse sumindo, tornando-se cada vez mais distante, como uma música em processo de fade-out.

Ainda sem conseguir compreender totalmente o que havia ocorrido, ficamos parados ali na porta, contemplando o que parecia ser o ponto mais distante do universo, o ponto aonde ninguém jamais chegara. Se eu fosse religioso, teria acreditado que aquilo era uma das entradas do inferno como alguém disse anteriormente. Tomada pelo desespero que nos consumia, uma das pessoas que integrava o grupo virou-se para fugir, gesto que foi acompanhado por todos os presentes, mas, se aquilo era o inferno, ele não estava disposto a nos deixar fugir. Fomos impedidos de correr quando uma força invisível começou a nos sugar em direção ao abismo, tal qual os integrantes de uma nave espacial que tem um buraco na fuselagem são puxados pelo vácuo. Não havia aonde segurar, e a força era demasiadamente forte. Os mais fracos foram puxados sem oferecer qualquer resistência. Eu consegui me segurar na porta com toda a força que ainda me restava, vendo, impotentemente, as pessoas sendo tragadas para aquele buraco. Alguns tentavam agarrar-se a mim na esperança de permanecerem vivos, e eu tentava ajudá-los a ficar, mas a fome do abismo era maior; eu ouvia os gritos, o choro, sentia o desespero de cada pessoa que passava por mim e era engolida por aquilo. Eu chorava, e mesmo as lágrimas que escorriam para for a de meu rosto era também sugadas pelo insaciável abismo; sentia minha mente derreter como geléia a cada gemido proferido pelo abismo, tive a impressão de que aquilo estava vivo e falava – na verdade, eram grunhidos lentos e abafados, grave como se tivesse sido pronunciado por alguém sem as cordas vocais.

Alguns minutos depois da última pessoa ter sido engolida, minha resistência estava-se esgotando; quando, quase desistindo de segurar-me na porta, ouvi o barulho vindo do abismo cessar, e a força que nos puxava subitamente parou. Caído no chão totalmente tomado pelo cansaço, olhei para trás e vi a mesma sala que viramos quando abrimos a porta. As mesmas paredes de pedra, a mesma escada enferrujada na parede. Fechei a porta e, com o coração acelerado, a respiração ofegante, os olhos inertes pelo terror, tentei correr de volta ao ponto de origem, mas minhas pernas não obedeceram, senti que a escuridão novamente avançava sobre mim; cai inconsciente no chão, com o corpo totalmente inerte.

Quando acordei, estava em um quarto de um hospital qualquer no centro do Rio de Janeiro. O médico me disse que eu estava bem, tivera apenas um desmaio devido à fadiga e recomendou-me diminuir um pouco o ritmo de trabalho. Ao perguntar como havia chegado ali, limitou-se a dizer-me que eu fora trazido por funcionários do metrô, após ter sido encontrado desmaiado na estação da Cinelândia, alguns metros após a entrada do túnel em direção à Zona Norte. Cheguei a retornar à estação alguns dias depois para informar-me sobre o que realmente havia ocorrido, mas tudo o que sabiam é que alguns transeuntes chamaram a segurança ao me ver passar a placa de “Acesso Restrito. Somente pessoal devidamente identificado e autorizado, de acordo com a legislação interna em vigor.” e sumir na escuridão. Os funcionários disseram que nunca houve no metrô um acidente grave como o que eu havia reportado; tampouco sabiam da existência de qualquer plataforma dentro dos túneis ou de qualquer sala com a descrição que eu dera.

Apesar de alguns colocarem em dúvida minha sanidade, diante da falta de qualquer evidência que possa comprovar os eventos que presenciei, até hoje, sempre que fecho meus olhos, ainda sinto aquele cheiro azedo impregnando o meu nariz, e ainda posso sentir a densa escuridão avançando em minha direção tentando tragar-me para algum lugar que desconheço qual seja. Quando cai a noite e me recolho para a cama para tentar dormir, ainda posso ouvir os gritos recheados de dor e angústia que alcançavam nossos ouvidos partindo de dentro do abismo; ainda posso ouvir, claramente, aquele estranho grunhido proferido pelo abismo, como se estivesse me fazendo um convite.


Um conto de Luiz Poleto

segunda-feira, 16 de março de 2015

A Mulher que Temia a Chuva


Casas antigas...
Noites escuras...
Lugares sombrios...
Florestas...
Cemitérios...

Por que tudo precisa ser tão clichê?
Por que essas criaturas, seres das sombras, precisam desses lugares?
Porque eles precisam do nosso medo para surgir, pois o nosso medo cria a atmosfera ideal para que eles venham até nós. E em situações chave, ou clichês, o medo irradia de nós como ondas de rádio. E então eles vêm.

Depois do que vi, do que presenciei, comecei a buscar explicações. Acabei lendo notícias sobre cenas de crime, ataques terroristas e acidentes onde fotógrafos capturaram imagens ou vultos assustadores. Presenças macabras que seguiram o medo até aqueles lugares. Quanto maior a quantidade de medo, mais deles aparecem. Por isso não me surpreende que tantos deles tenham chegado à Manhattan naquele fatídico 11 de setembro, assim como não me surpreende que apenas um deles tenha chegado à casa de dona Rosália naquela noite tempestuosa de janeiro. E logo ela que tanto temia as chuvas.

Dona Rosália era minha vizinha desde que eu me entendo por gente no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Sua casa era um sobrado antigo, mas muito bonito, no estilo que só é encontrado mesmo nesse bairro. Se você já esteve aqui, sabe bem do que estou falando.

Minha vizinha era uma viúva de 51 anos; ainda nova, é verdade, mas já enterrara três maridos pelo menos. Nós, quando crianças, a chamávamos de viúva negra, mesmo que mal soubéssemos o significado daquilo.

Ela, assim como minha mãe, morava com um único filho. Mas ao contrário de mim, que sempre estou em casa, já que trabalho como revisor de textos, Cleiton, seu filho, passava a maior parte do tempo na rua por causa da faculdade e do trabalho. Por isso, pra compensar a solidão, dona Rosália começou a alugar os quartos do sobrado. Era uma forma de fazer amigos (Pois lá se hospedavam pessoas de todo o mundo) e ter também uma renda extra. Era uma mulher batalhadora, forte, digna de admiração. Não temia bandidos, assim como baratas ou ratos. Seu único medo eram as tempestades. Seus três maridos haviam morrido durante tempestades.

O primeiro foi atingindo por um raio, ainda quando ela morava numa fazenda no interior do estado, quando tentava levar uma vaca de volta para o celeiro. O segundo, pai de Cleiton, a levou para o Rio de Janeiro e a deixou com uma situação de vida confortável ao morrer em um acidente no cento da cidade durante um forte temporal. O terceiro a levou para sua casa em Santa Teresa e era um primo de segundo grau de minha mãe. Foi o casamento mais longo e mais feliz dela. Ele trabalhava numa companhia elétrica e certo dia, durante uma tempestade, saiu para restabelecer a luz em um dos bairros e nunca mais voltou pra casa.

Naquele janeiro, porém, não houve mortes. A tempestade nada levou, apenas trouxe.

Eu o vi saltar do bonde da minha janela. Era um sujeito estranho, de barba lisa e branca como os seus cabelos. Suas sobrancelhas eram grossas e negras. A despeito disso, não me parecia ser muito velho. Usava roupas negras, longas, e tentava se proteger da chuva sob um chapéu ordinário. Na mão, nada além de uma valise. Reparei que ele conversava sozinho, nada muito anormal. Estou acostumado a pessoas estranhas, dada a grande quantidade desses tipos aqui no bairro.

Como eu esperava, ele se dirigiu a casa de dona Rosália. Conversaram à porta por alguns minutos e então ele entrou. Mais um hóspede.

Pouco soubemos sobre Pazú, o hóspede, nos dias que se seguiram. Eu o via raramente, mas nas poucas vezes eu sentia algo sinistro nele. Algo estranho na forma como fumava e conversava com algum ser imaginário. Dona Rosália disse que ele passeava pelo país, conhecendo e fotografando lugares. Pagara para ficar hospedado por um mês, mas disse que se gostasse ficaria por mais tempo. Ela não se importou, afinal, em sua casa as pessoas vêm e vão e ninguém nunca pergunta nada. Como em um hotel. Você conhece pessoas, mas não cria laços. Uma vez me apaixonei por uma hóspede da minha vizinha, uma bela húngara. Pra mim foi intenso, pra ela foi casinho de verão; nunca mais nos vimos. Meu primeiro e frustrado amor.

Bem, no bairro, tudo continuava a mesma coisa. Nada alterava nossa rotina de bairro turístico. Pelo menos uma vez por semana eu ia até a editora onde eu trabalhava para entregar o material revisado e pegar a nova leva. Trabalhar em casa tinha suas vantagens, mas eu sempre tinha tanto o que fazer que acabava ficando sem tempo para iniciar o meu romance. Na verdade, eu escrevia bem, mas nunca achei que pudesse ter inspiração para uma história. Até então.

Nesse dia em que desci até a zona sul, tudo parecia normal. Exceto pela volta pra casa, onde eu encontrei Pazú. Poderia ter sido um encontro casual, mas eu resolvi segui-lo por alguma razão. Não entendi o porquê, mas em poucos minutos eu o vi adentrar o cemitério São João Baptista. Não fui adiante, pois fiquei com medo. Assumo, cemitérios me apavoram bastante. Por isso voltei pra casa; talvez ele estivesse apenas visitando algum conhecido enterrado ali.

Da minha janela, eu vi quando ele voltou. Ele me olhou rapidamente e acenou pra mim. Meio reticente, retribuí o aceno. Mas algo nele me assustou, não sei explicar o que. Não consegui parar de pensar nele antes de dormir.

Na manhã seguinte, encontrei dona Rosália conversando com minha mãe na cozinha. Parecia assustada. Quando perguntei o que havia acontecido, ela respondeu nervosa.

- Pazú.

- O que há com ele?

- Ontem a noite – ela disse – antes de me recolher, passei pela casa pra checar se as portas e as janelas estavam fechadas, como sempre faço. Quando passei pela porta do quarto de Pazú, ouvi uma conversa. Ele parecia rir com algumas pessoas ali dentro. Aquilo me enfureceu, pois, você sabe, tenho algumas regras no sobrado. E uma delas é que não permito visitantes após as dez da noite. Por segurança.

- Claro – concordei – a senhora está muito certa.

- Então bati na porta. A mulher que ria, logo se calou. Alguns segundos depois Pazú abriu a porta. “Pois não”, disse ele. Expliquei que na casa havia regras e como já havia passado das dez da noite, não gostaria que ele tivesse visitas no quarto. “Mas não há ninguém aqui”, falou ele abrindo a porta. O quarto estava vazio. Eu lhe disse que havia ouvido vozes, mas insistiu que estava sozinho e me convidou a inspecionar o quarto. Não havia ninguém lá, nada. A janela estava trancada por dentro, então não teria saída. Olhei sob a cama, dentro do armário e no banheiro. Nada, menino. Nada. O que eu podia fazer? Desculpei-me e saí do quarto. Assim que a porta se fechou, as mesmas pessoas voltaram a conversar. Mas não havia ninguém lá. Saí para checar os outros hóspedes. Todos estavam sós em seus quartos e eu os conheço bem o bastante pra saber que não levariam ninguém para dentro da minha casa sem minha autorização. Os barulhos vinham mesmo do quarto de Pazú.

- Você não falou nada com ele? – perguntou minha mãe, indignada. As duas eram muito amigas.

- Falar o que? Eu mesma chequei o quarto. Mas o pior foi hoje de manhã.

- O que houve? – eu perguntei.

- Fui preparar o café da manhã do Cleiton e ele me perguntou se havia hóspedes novos na casa. Respondi que não, lógico. Então ele me perguntou quem era a mulher e a criança que ele vira nos corredores quando ele chegou em casa ontem, por volta da meia-noite.

- Meu Deus, Rosália! – disse minha mãe, pálida – Eu estou toda arrepiada.

- Você não acha que...?

- Fantasmas, meu filho. Tem fantasmas na minha casa. E eles chegaram com o Pazú.

Depois daquilo, passei a ter mais medo da figura de Pazú. Achava que dona Rosália era muito corajosa por manter em sua casa pessoas das quais ela não conhecia a procedência. Proibi minha mãe de falar com aquele homem e pedi que ela convencesse dona Rosália a pedir que ele fosse embora. Mas minha vizinha já usara o dinheiro que ele pagara previamente, portanto, não poderia mandá-lo embora até o fim do mês.

À época do carnaval, as comemorações de rua aqui no bairro foram canceladas por causa das chuvas ininterruptas. A cidade mais abaixo estava um caos, que todos tentavam abafar por causa das festividades.

Num desses dias, Cleiton me convidou para dar uma volta com ele na Lapa. Não sou muito chegado a noitadas, menos ainda quando chove. Mas Cleiton raramente me convidava para sair e eu muito apreciava sua companhia por causa de sua inteligência. Fui encontrá-lo no sobrado às nove da noite, como combinado.

Já havia estado naquele lugar tantas vezes, nada era novo pra mim. Enquanto aguardava por ele, dona Rosália me serviu um chocolate quente. O que ela preparava era o melhor, sem dúvida.

- Pazú está em casa? – perguntei, pois não queria encontrá-lo.

- Não. Esteve fora o dia inteiro. Já conversamos e ele disse que não pretende ficar mais do que o combinado. Só mais uma semana e estarei livre dele.

- E os outros hóspedes?

- Todos na rua.

Cleiton desceu as escadas logo. Estava arrumado demais para ir a Lapa, eu disse, mas ele não deu a mínima. Quando dona Rosália nos levava à porta, ouvimos passos no andar de cima.

- Mãe – falou Cleiton, assustado – Você disse que estávamos sós em casa.

- E estamos.

- Então quem está correndo no andar de cima?

Cleiton pediu minha ajuda para investigar o sobrado e me passou uma lanterna. Admito que estava assustado demais, mesmo assim fui com ele por todos os lugares do sobrado. Ouvimos passos e risadas pela casa, mas não havia nem sinal de qualquer ser vivo ali dentro. Ser vivo.

O clima para sair já não existia mais e diante do pavor de dona Rosália, a levamos pra minha casa. Minha mãe tratou de acalmá-la contando suas piadas (Deus a abençoe) e logo dona Rosália estava refeita.

Cleiton, porém, parecia furioso. Trouxe-o ao meu quarto para uma conversa e ele se dizia irritado com o que estava acontecendo no sobrado desde a chegada de Pazú.

- Esse nome dele – ele falou – é o que mais me intriga. Pazú. Sabe o que me lembra? Pazuzu.

- O que é isso?

- O demônio da Mesopotâmia. Diz lenda que ele chegava com os ventos do verão, levando o flagelo aonde quer que ele fosse. Era conhecido como o agarrador, pois gostava de carregar espíritos junto a ele.

- Caramba, cara, Pazú já me dava medo antes de eu o associá-lo a essa história... Agora então... Eu o vi entrar no cemitério há alguns dias atrás.

- Mesmo? Onde?

- Em Botafogo.

- Tem alguma coisa muito errada com esse homem e hoje ele vai ter de me explicar o que é.

Cleiton sempre foi muito calmo. Era a primeira vez que eu o via tão irritado. E quando faltou energia, sua irritação pareceu aumentar ainda mais. Só disfarçou quando minha mãe subiu até meu quarto acompanhada de dona Rosália. Juntos, ficamos olhando a noite chuvosa e as ruas escuras. Lembram do que eu falei sobre o medo? Pois é, ele era quase palpável naquele momento.

Quando a chuva estiou, ouvimos barulhos na rua. Alguém se aproximava segurando uma vela. Pazú. Não posso dizer se foi efeito da luz da vela sobre ele, mas sei que quando ele chegou vi dezenas de vultos escuros ao seu redor. Me apavorei.

- Vocês ficam aqui – falou Cleiton – Vou ter uma conversinha com esse cara.

- Cleiton, não... Espere a luz voltar! – falou sua mãe.

Mas ele insistiu que ela ficasse. Vi quando ele atravessou a rua e adentrou o sobrado. Nada foi ouvido por vários minutos. Nada. Os dois então saíram do sobrado juntos, mas cada um seguiu um lado. Pazú seguiu a rua principal. Cleiton voltou a minha casa.

- E então? – perguntei.

- Eu disse que vamos fazer obra no sobrado e que seria melhor que ele procurasse outro lugar pra ir. Indiquei os albergues da rua principal e ele foi até lá checar se havia quartos disponíveis. Podemos ir pra casa.

Quando os dois atravessavam a rua, a energia voltou. Os dois acenaram pra nós sorrindo. Minha mãe fez uma piadinha qualquer que eu não consigo lembrar e Cleiton respondeu de volta, rindo bastante. Foi a última vez que o vimos vivo.

Fomos acordados por dona Rosália, pedindo por ajuda. Ela dizia que Cleiton não havia acordado para ir para a faculdade e não abrira a porta do quarto quando ela chamara. Fui até lá, com a adrenalina correndo nas minhas veias, e arrombei a porta.

Cleiton estava na cama, com uma expressão de pânico no rosto. Morto. Com lágrimas nos olhos, passei mão em seu rosto para amenizar suas feições. Quando sua mãe adentrou o quarto, era o desespero encarnado. Eu não podia assistir àquilo.

Enquanto minha mãe cuidava dela, eu cuidava de entrar em contato com a polícia e do enterro. Ataque cardíaco; um rapaz de apenas vinte e três anos. Quando nos preparávamos para ir ao cemitério, no dia seguinte, Pazú voltou pra casa. Ele apenas nos olhou, pois estávamos com dona Rosália, e entrou no sobrado.

- Esse homem... – murmurou minha mãe – O que ele ainda faz aqui?

- Não deve ter conseguido outro lugar pra ficar.

Enquanto dona Rosália chorava e Cleiton era enterrado, eu não conseguia parar de pensar que de alguma forma o encontro com Pazú aquela noite decretara a morte do meu vizinho.

Dona Rosália passou os dias que se seguiram ao enterro de seu filho nos evitando, mas nós ouvíamos discussões e gritos todas as noites no sobrado. Algo estava indo mal ali. Minha mãe pediu que eu interviesse e eu liguei pra polícia. Quando eles chegaram, eu trouxe a dona Rosália pra dormir conosco. Ela estava em um estado lastimável.

- Eu vi... – disse ela – meu filho naquela casa. Ele estava conversando com Pazú.

- Isso é impossível, Rosália – falou minha mãe – Cleiton se foi. Não está mais entre nós.

- Não em corpo, mas seu espírito está lá. Sabe o que eu descobri? Que ele, Pazú, é um colecionador. Ele coleciona fantasmas. Estão todos em seu quarto, aprisionados de alguma forma naquela valise. São eles que me acordam a noite, que fazem barulhos, que perturbam os cães, que conversam... Meus hóspedes, os mais antigos, foram embora hoje. Eles têm medo do que viram... E não os culpo. São homens, mulheres, crianças... Todos no meu sobrado, agarrados por Pazú.

- Você está perturbada com a morte do Cleiton, Rosália, é só isso.

- Não é. Ele coleciona fantasmas, me ouça. Eu sei disso – ela estava trêmula – A polícia o obrigou a sair e ele vai embora amanhã. Mas eu preciso ir até o quarto dele... Preciso destruir aquela valise e libertar os espíritos. Preciso libertar meu filho.

- Isso está errado, Rosália! Você não vai lá. Você vai dormir aqui e pronto.

- Não posso... Não posso...

Mesmo assim ela adormeceu. Minha mãe se recolheu algumas horas depois. Eu fiquei acordado boa parte da noite. A maior parte eu passei ouvindo gritos e risos que vinham do sobrado do outro lado da rua. Era assustador, mas não sei até que ponto eu poderia ou não acreditar no que dona Rosália disse. Aquela valise... Colecionador de fantasmas... Então dormi. E não vi minha vizinha voltar ao seu sobrado.

Quando minha mãe me avisou que dona Rosália estava morta, na manhã seguinte, eu corri até sua casa. O corpo dela estava sobre sua cama, dando a impressão de que morrera dormindo. Porém, as meias em seus pés estavam sujas de terra, como se por toda a noite ela estivesse andando pela casa ou pelo quintal. Não fora uma morte natural. Pelo menos não de todo.

Seu hóspede, Pazú, estava acabando de sair do quarto. Foi a primeira vez que eu o vi tão de perto e senti meu coração bater descompassado. Havia algo estranho em seu olhar. Uma certa melancolia, ou ódio... Nunca poderia dizer ao certo. Deixou a chave sobre a mesa da cozinha, com uma certa quantia de dinheiro, e carregava sua velha valise. A tal valise. Eu nunca saberia o que acontecera ali naquela noite entre minha vizinha e aquele estranho.

- Sabe que ela morreu, não é? – eu disse.

- É o destino de todos nós – respondeu com sua voz rouca.

- E você não viu nada?

- Como disse à sua mãe, a encontrei no chão da cozinha e a trouxe para o quarto.

- Você não teve nada a ver com isso?

Ele não se ofendeu como eu achei que faria. Pelo contrário, acendeu um cigarro preto e sorriu.

- Quisera eu que a morte tivesse um razão.

- E eu queria que você deixasse o espírito dela livre.

Ele me encarou e riu. Riu tanto que quase engasgou.

- Deixe-me ir, rapaz, já está chovendo outra vez e eu preciso de um novo lugar pra ir. A polícia me quer longe daqui.

Ele saiu do sobrado, deixando seus passos na lama. Então, apavorado, eu vi que outros passos eram deixados atrás deles. Muitos passos. Senti um frio percorrer meu corpo, pois ele não saía sozinho da casa. Cheguei até a soleira do portão e enquanto ele seguia a rua sob a chuva até o ponto do bonde, pude ver as pegadas nas poças d`água atrás dele. Ele conversava com alguém. Quando o vento bateu, soprando a chuva na diagonal, eu vi formas distintas de pelos menos treze pessoas que o seguiam. Ele olhou pra trás e riu, me dando a certeza de que dona Rosália estava certa. Aquele homem maldito, que chegou com a chuva e se foi com ela, colecionava fantasmas. E ela, assim como seu filho, era agora uma das peças da coleção.

Escrito por A. S. Vieira 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O Caso do Assassino da Teia


Tudo começou há 3 meses, vítimas foram encontradas sem sangue e enroladas em um tipo de seda. Pareciam insetos mortos por uma aranha. Logo começaram a chamar o caso de “Assassino da teia”. Até o momento, 12 se tornaram vitimas desse assassino desconhecido. Não havia vestígios ou provas de quem seria esse assassino, alguns acreditavam que as vítimas foram parte de algum ritual satanista. O caso já estava para ser arquivado, até que um dia, uma mulher que caminhava em um parque, ouviu algo, parecia o som de alguma coisa sendo arrastada, ela gritou, perguntando se alguém precisava de ajuda e não houve resposta, nem mesmo havia pássaros cantando. Ela ficou preocupada e decidiu verificar o que estava acontecendo, já que alguém poderia estar ferido e não pudesse falar.

Ela começou a procurar por toda a área ao redor, sem sucesso. Ela continuou procurando por mais alguns minutos e logo decidiu descansar embaixo de uma grande árvore. Por alguma estranha razão, algo lhe disse para olhar para cima, e o que ela viu parecia algo de um filme de terror. Havia um corpo pendurado no que parecia seda, e para sua surpresa, a pessoa ainda estava viva. As autoridades foram chamadas, e levaram a vítima para o hospital, ela poderia ser muito útil para ajudar a encontrar o assassino, assim ela acordasse.

No dia seguinte encontraram outra vítima, pendurada em um passarela em uma rua isolada. Era a vítima número 13, e assim decidiram me chamar. Meu nome é Alex, sou especialista em casos ligados a rituais satanistas e ao paranormal. Eu li os relatórios do caso e decidi revisitar cada área onde as vítimas foram encontradas, caso os investigadores da polícia tivessem deixado passar algo. Cheguei á primeira área. Não havia sangue ou fios de cabelo... tudo o que vi foi um cão fugindo assustado e de orelha baixa. Mas isso não importava, não poderia perder tempo com besteiras.

Segui para a próxima área, e como antes, não encontrei nada de importante. Eu já estava prestes a seguir para o próximo local quando vi algo movendo-se em um canto, era um cão, parecia exatamente o mesmo que eu tinha visto antes, porém, apenas a sua cabeça estava visível, enquanto o resto do corpo estava oculto pela escuridão da área. Ele tinha lindos olhos azuis, pensei que ele estivesse me seguindo, achando que eu talvez pudesse lhe dar algo para comer, o que eu não tinha no momento. Encontrei um hambúrguer meio comido em uma lixeira, e o joguei para o cão, em seguida parti para o próximo local.

Eu estava nas docas, e o cheiro de peixe já estava quase me fazendo vomitar. Caminhei pelo apertado beco onde o corpo foi encontrado, olhando por todos os cantos, até que captei algo. Era um pequeno tufo de cabelo negro, e já que cabelo da vítima era tingido de rosa, naquele momento pensei que o tufo de cabelo só poderia ser do assassino. Eu o coletei e continuei a minha procura, não encontrando nada mais importante. Por um momento, naquele beco apertado, me senti observado. Olhei ao redor, procurando por meu perseguidor e o encontrei; escondido nas sombras, estava um cão.

Era o mesmo de antes, ele estava apenas me observando, sem se mover ou mesmo piscar. Ele já estava me assustando.

Meu celular tocou e eu quase enfartei, era o Jeff, eu havia deixado a amostra de cabelo com ele, ele reportou que não era cabelo humano, eram pelos de aranha, e foi nesse momento que a minha ficha caiu; as vítimas estavam sem sangue, amarradas com fios de seda, e todas estavam penduradas em algum lugar. Realmente parecia obra de uma aranha, mas as suspeitas eram de um serial killer fanático por aranhas, e não uma grande aranha assassina. Uma aranha não poderia fazer um estrago desses. Talvez um experimento do governo? Não seria a primeira vez que algo assim acontece. Captei algo em minha visão periférica, era o cão de alhos azuis, ainda me encarando. Sai do beco e entrei em meu carro, pensei que talvez pudesse encontrar algo no próximo local.

Entrei no abatedouro abandonado, o local do quarto assassinato, o abatedouro já possuia um histórico ruim, um louco que costumava matar suas vítimas e come-las naquele local. Ele nunca foi capturado nem identificado, anos depois até fizeram um filme sobre isso. Às vezes algumas crianças se desafiam a entrar no abatedouro, ou alguns fanáticos invadem tentando encontrar fantasmas. O cheiro de mofo batia em meu rosto, me sufocando enquanto andava pela área onde o corpo foi encontrado. Segundo o relatório, a vítima estava pendurada no cano de metal, que naquele momento estava bem acima de mim, se o cano no tivesse quebrado, o corpo jamais seria encontrado. Não havia como alguém ter pendurado um corpo tão pesado naquela altura. Uma pessoa não poderia fazer algo assim sozinha. Isso parecia justificar a teoria da aranha gigante.

Ouvi algo se movendo. Sem uma arma no momento, resolvi usar um dos canos que estavam caídos no chão. Seria o assassino? O local era grande e perfeito como um esconderijo. Comecei a caminhar lentamente, e bastante atento a todos os movimentos ao meu redor. Encontrei algumas portas, estavam enferrujadas e travadas. Enquanto me virava para tentar encontra outras portas, algo me assustou, me fazendo pular para trás. Era apenas um cão, o mesmo que esteve me seguindo o dia todo, aquele pestinha assustador, como sempre, eu só conseguia ver a sua cabeça, o resto estava escondido no escuro. O cão parecia estar em um local mais alto, pensei que estivesse em algum andar acima de onde eu estava e que não consegui enxergar no escuro, talvez tivesse alguma escada por trás das portas enferrujadas que não consegui abrir. E se fosse isso mesmo, como o cão chegou lá?

O meu celular tocou, era o Jeff outra vez, ele me avisou que a garota tinha acordado e descrito o atacante, a policia não acreditou quando ela disse que o atacante não era humano, era uma criatura muito grande e que parecia uma aranha. Ela completou, dizendo que a criatura possuía um tipo de segunda cabeça no abdômen, uma cabeça que se assemelhava à de um cão, de orelhas baixas e olhos azuis...

Ouvi algo caindo atrás de mim, eu não conseguia me mover, não conseguia falar ou gritar, estava sem saída...

Naquele momento, percebi que o assassino já estava me observando o tempo todo...



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Perdido



Carlos estava caminhando entre os túmulos, olhava lápide por lápide, era um dia cinzento e frio. Ele admirava a beleza daquele cemitério, o silêncio, o aroma das flores, a arte dos túmulos perfilados. Poderia permanecer horas naquele local, sentia uma paz absoluta, que só foi quebrada quando um velhinho estabanado se aproximou por trás dele.

"Meu filho... meu filho... Por favor, me ajude?"

O coração de Carlos quase saltou pela boca. Virou assustado e avistou aquele senhor magro, grisalho, com um rosto sofrido, já marcado pelo tempo. Seu susto e sua raiva se transformaram em dó, em vontade de ajudar o frágil senhor.

"O que o senhor deseja?"

"Meu filho... Estou perdido." - respondeu o senhor retirando do casaco um cartão azul - "Já não consigo enxergar essas letras tão pequenas, preciso encontrar este local."

Carlos pegou o cartão, era do próprio cemitério, indicava o lote e a quadra da pessoa falecida.Carlos ficou sensibilizado com o velhinho e resolveu ajudá-lo.

"Tudo bem, vamos encontrar a quadra, e depois fica fácil. Não estamos muito longe.”

"Muito obrigado meu filho, mas não vou te atrapalhar?"- perguntou o velhinho.

"Claro que não, trabalho algum”.

Os dois seguiram para a tal quadra. Enquanto andavam, conversavam sobre vários assuntos. O velhinho andava lentamente e Carlos fazia o possível para não deixa-lo para trás.

"Que bom que você está me ajudando meu filho, eu estou procurando esta quadra há um tempo já. E o pior é que estou atrasado.' - disse o velhinho.

"Atrasado?' - perguntou Carlos.

"Sim, meu filho. Estou atrasado para o enterro. Já estão todos lá, só que não consigo encontrar”.- resmungou o velhinho olhando para o papel.

"Entendo... Desculpe a curiosidade, é parente do senhor?”

"Olha meu filho, me desculpa viu? Mas, não quero falar disso agora”- retrucou o velhinho com um ar triste.

Ele ficou sem graça, não teve a intenção de chatear o velho.

Os dois continuaram andando. Quadra por quadra, lápide por lápide, Carlos observava cada túmulo, as fotos das pessoas falecidas, crianças, jovens, velhos. Enquanto se aproximava Carlos avistou algumas pessoas reunidas.

"Olha lá! Acho que encontramos o lote senhor. Está acontecendo um enterro." - disse Carlos apontando para o grupo de pessoas.

O velhinho parou, ficou observando alguns segundos, e disse:

"É, são eles mesmo. Minha família... Chegamos bem na hora."

"O senhor está se sentindo bem?" - perguntou Carlos.

Os dois se aproximaram do enterro. O velhinho parou colocou a mão no ombro de Carlos.

"Sim meu filho estou bem. Muito obrigado pela ajuda, eu não poderia chegar atrasado nesse enterro. Não poderia deixar de estar aqui, de me despedir de todos”.

"Como assim de todos?"

"Da minha família, hoje é meu enterro. É hora da minha despedida. Muito obrigado”.

Carlos não podia acreditar que estava falando com um morto, saiu correndo em disparada, e nem ao menos olhou para trás. Enquanto corria, jurava para si mesmo que nunca mais ia voltar em um cemitério para... Carlos parou. Sua pulsação ficou mais forte, estava ofegante. Ele não conseguia lembrar o que estava fazendo ali. Qual o motivo de estar naquele cemitério. Só lembrava que antes do velho aparecer ele estava olhando túmulo por túmulo. Percebeu que tinha algo em seu bolso. Colocou a mão e retirou um cartão azul. No cartão estava seu nome e o local onde seria enterrado.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Encontro com o Horror Alado (Conto de Terror)

Olhando para o alto do céu, muitos de nós não veem os mistérios infinitos. Nós , humanos, somos com vermes para os seres que habitam os ares. Porém, acidentalmente ou não , alguns conseguem ver horrores além da imaginação humana.



Este relato foi uma amiga minha do Rio de Janeiro, a querida doutora S., quem me contou, após ouvir de um de seus pacientes uma situação verídica ou supostamente verídica ocorrida com ele, que vou chamar de Senhor H. Infelizmente a doutora S. faleceu ano passado, durante um voo de asa delta, que era seu passatempo predileto.

Como a doutora S. sabia que eu era um eventual pesquisador de criptologia, resolveu me repassar este estranho e inacreditável relato um ano antes de morrer, o relato do avistamento de um criptoide alado!

Quero, antes disso, fazer uma advertência a toda minha distinta plateia de leitores! Quero avisar às pessoas nervosas e facilmente impressionáveis que parem de ler imediatamente estas linhas porque o relato a seguir é um dos mais assustadores e tenebrosos que já ouvi e ainda agora tenho dúvida – e medo! – de torná-lo público.

Parem de ler imediatamente se vocês, caros leitores, não tiverem a inequívoca certeza de que possuem coragem para um encontro com o fantástico e o sobrenatural. Seria prudente que pessoas nervosas evitassem continuar a leitura. É bom que vocês pensem bem antes de continuar a ler o que vou contar; não me responsabilizo pelas consequências da leitura deste texto, dos prováveis surtos de medo, ataques de pânico e paranoias atemorizantes que por ventura venham a surgir em seus psiquismos cutucados pelo mistério do que vou narrar... Depois não reclamem de terem pesadelos horripilantes na calada da noite, de se retorcerem de medo na cama, suando em bicas diante da mera lembrança de um fato que abalou o pobre Senhor H. e todos que com ele experimentaram o contato chocante e indelével com o sobrenatural.

E aos meus detratores e zombadores que me rotulam de loroteiro, cuidado com os mistérios da vida e da morte porque a existência humana é fugaz e não teremos tempo de vida para resolver o Enigma da Existência ! Não, senhores, não zombem de meus relatos, não estou aqui para brincadeiras, pois tenho idoneidade e também uma reputação draconiana a cuidar com esmero e dedicação de nobre cavalheiro do sul que sou. Tudo o que conto aconteceu realmente, porém se é verdade ou mentira o que contaram para mim, não cabe a minha singularíssima pessoa julgar, pois acredito nas gentes com quem travo amizade de longa data. Todavia, se forem leitores corajosos e audaciosos, venham comigo nesta jornada infernal ao tenebroso mundo do sobrenatural, em busca de uma criatura que voa nas noites escuras emitindo um grito que faria congelar o sangue do mais cético e materialista dos homens! Um ente alado que cruza os céus, por rotas sobrenaturais desconhecidas pelas mentes mais incrédulas, vindas, quiçá, de espaços exteriores invisíveis nas camadas atmosféricas, reinos aéreos e insólitos que coexistem com o plano físico.

Queria salientar, outrossim, que minha amiga S. era, em vida, psiquiatra com um consultório de muito famoso. Ela, quando me contou o relato, tinha uma carreira a zelar e por isso pedira-me o anonimato dela e dos envolvidos neste relato medonho; teve, porquanto, a dosimetria essencial da ética para com seus pacientes que lhe eram caros como representantes dignos da raça humana e porquanto merecedores de toda bonomia diante da condição de ignorância a fatos que fogem ao “natural”, ao “normal”. Também é bom dizer que o fato dela ter me contado o relato de um paciente, não quer dizer que ele, o paciente, seja um insano ou um demente alucinado; nem todo mundo que vai ao consultório de um psiquiatra jaz sob os mantos negros e crudelíssimos da loucura, essa gripe da alma! O senhor H. não apenas fazia um “check-up” psicológico, mas procurava tratar de uma fobia que subitamente lhe acometera: medo de viajar de avião! Ele, esse homem, não teria motivos para inventar este relato que creio ser verídico na sua essência, já que é um empresário de sucesso, casado e com filhos, dono de uma rede de imobiliárias em todo o Estado e fora dele também. Eis, em síntese, o relato aterrorizante contado pelo Senhor H., condensado e adaptado de últimas comunicações epistolares que travei com a finada Doutora S.:

“Doutora S, eu tinha ido pescar num famoso lago do sul do Brasil. Estávamos numa pequena lancha, algo parecido como um “micro-iate”. Estávamos atrás dos peixes deliciosos dessa lagoa do sul, era verão, a noite era quente e uma enorme lua cheia brilhava no céu como se fosse uma bacia gigantesca de águas prateadas, onde gigantes cósmicos voadores e invisíveis oriundos de estrelas longínquas fossem para nela se banharem, sendo que o plenilúnio se refletia nas águas verdes e escuras em tons de assombrações rutilantes!

“Tínhamos levado muita cerveja gelada e muitos cigarros especiais de marijuana para que pudéssemos conversar com sossego durante toda a noite aprazível, no convés da lancha. Só entraríamos para a pequena cabine quando fôssemos dormir. Tínhamos pescado o dia todo e agora apenas curtíamos o nosso descanso merecido, assando uma tainha deliciosa ali mesmo no convés, em uma pequena churrasqueira desmontável, especial para embarcações.

“Tudo estava uma belezinha até que um de meus amigos, que havia sido expulso de uma ordem iniciática famosa e dado a leituras de tomos de ocultismo e outras obras de cunho metafísico e espiritual, e cujo apelido era “Poeta”, começou a olhar para o céu estrelado, filosofando de um jeito estranho:

“- Amigos! Olhem lá para o alto do céu e contemplem o seu mistério infinito. Nós, humanos, somos como que vermes para os seres que habitam os ares. Há, segundo dizem alguns místicos, cidades celestiais, reinos aéreos invisíveis sobre a cabeça de nós, os tolos homens. Contemplem o infinito cósmico, as solidões perturbadoras entre as estrelas, a lua lânguida, essa prostituta e rainha nua do céu, que aos poetas mais loucos seduz com sua nudez de prata. Nas estradas do ar e do céu, há rotas fantásticas por onde, por certo, voam e passeiam seres além de nossa pueril imaginação!

“Todos nós rimos achando engraçado o que ele dissera (estávamos em cinco e já de pilequinho!). Só um não riu, um de meus outros camaradas de pescaria, o Cabeção, que era o mais cético, mau humorado e ateu de entre nós:

“- Vá para o inferno com essas suas tolices místicas e poéticas! A única coisa alada e viva que tem no céu é passarinho, urubu, muriçoca e pernilongo! Vai me dizer agora que tu acreditas em seres alados e estranhos que voam pelo céu? Acreditas no Mothman ou Homem Mariposa é? Ah, ah, ah!...Não me faças rir!

“Todos riram outra vez. Menos o Poeta que pegou do bolso da jaqueta uma espécie de ocarina negra e começou a tocar, antes de falar isso:

“- Por entre os espaços siderais, por entre as camadas atmosféricas, existem gênios, criaturas e silfos, seres que bailam ao sabor das músicas do vento...Eles surgiram em eons esquecidos pela mente humana, são os reis do ar, e nele perambulam com suas asas invisíveis.

“O som da ocarina negra ecoou na lagoa envolta na penumbra , misturando-se ao marulhar das águas e ao vento vadio da noite de verão. Era um tom melancólico, uma música lúgubre e infernal evocando coisas medonhas que erravam na noite.

“De repente Cabeção ficou irado, gritou um “idiota!” para o Poeta e deu um tapa na ocarina, que foi cair nas profundezas da lagoa. Poeta ficou com raiva e os dois se engalfinharam numa luta corporal ali no convés. Felizmente estávamos ali e separamos a briga.

“Pedi calma aos dois e ofereci-lhes mais um trago de cerveja gelada. Eles se acalmaram, sentando-se no chão do convés, taciturnos.

“Neste instante, das sombras da noite, bem do alto, veio um estranho som. Parecia o piar ou guinchar de um pássaro exótico, mas não era. O som parecia gritar uma estranha palavra:

“ - Kiérghhhhk!...

“O grito ou pio horrendo parecia de ira e sarcasmo ao mesmo tempo. De repente forçamos a vista na penumbra, olhamos todos para a imensa lua cheia e vimos a silhueta alada de uma grotesca criatura meio homem, meio mariposa. Tinha, pelos contornos negros, uma cabeça como a de uma coruja, e as asas eram como as do mais negro e grande dos morcegos. Tinha o tamanho de um cavalo e aquilo nos deixou boquiabertos e arrepiados. A silhueta vez uma volta no céu, descendo em espiral sobre nós! Só vimos o vulto rápido planando ameaçadoramente sobre a gente, dando depois uma rasante que nos fez gritar de terror.

“ - Segurem-se todos! Vamos embora daqui, isto é uma encruzilhada de dimensões e aquilo é o cramulhão com as asas do fogo do inferno! – gritei dando partida ao motor da lancha e indo em direção a beira do lago, onde havia uma espécie de ancoradouro natural ou canal estreito que subia até a margem.

“Ainda olhamos para trás, para o alto do céu, e vimos, junto com as primeiras luzes vermelhas da alvorada, a criatura alada com olhos chamejantes erguer-se e sumir por entre os picos enevoados das montanhas adjacentes ao lago.

“Fomos embora quietos, calados. Nunca mais tocamos no assunto, nunca mais. Isto já faz muito tempo que aconteceu. Depois disso todos esses meus amigos morreram. E o que é mais curioso: todos morreram em acidentes aéreos, acidentes cujas causas ficaram meio que inexplicáveis. Teria sido um “Mothman brasileiro”, o que vimos naquela noite amaldiçoada? Que besta aérea seria aquela? Teria sido vingança por termos perturbado o voo daquele Horror Alado blasfemo que cavalga os ventos da noite dos condenados? Ou a ocarina negra de meu amigo teria despertado magicamente a atenção do estranho ser com asas de mariposa, corpo de homem e cabeça de coruja, ou ela teria sido evocada dos espaços interestelares ou atmosféricos pelo nosso misterioso companheiro de pescarias, o Poeta? São mistérios intrigantes que permanecem até hoje cravados como adagas de fogo do inexplicável em meu cérebro e memória, mas rezo no silêncio de minhas noites solitárias para que o Horror Alado, a besta fera com asas infernais, tenha sido uma alucinação etílica, delírio de bêbados e viciados... E é por isso que até hoje evito e tenho medo de viajar de avião, doutora S.!”

Não duvidei da história da doutora S, ouvida de seu paciente o Senhor H., mas fico a me perguntar se a morte de minha amiga, teria sido castigo por ela ter contado a mim o que não deveria ser contado pelo seu paciente, o Senhor H.?


Escrito por Rogério Silvério de Farias